
O roteiro diário feito de travessias de balsa e viagens de ônibus que lhe tomavam quatro horas do dia, entre ir e voltar da escola, não foi o bastante para afastar a jovem Bruna dos Santos Araújo, 17 anos, de um sonho que acalenta há anos: o de ser engenheira aeronáutica. Moradora do bairro Santa Cruz, no pós-balsa do Riacho Grande, ela acabou de concluir o Ensino Médio na EE 20 de Agosto, na Avenida Kennedy, no Jardim do Mar, e fez parte do primeiro grupo de 20 estudantes do Ensino Médio da rede pública beneficiados pelo Conecta São Bernardo.
Criado por iniciativa do prefeito Marcelo Lima, o programa da Prefeitura de intercâmbio internacional gratuito levou 20 jovens a Dublin, na Irlanda, para um período de 30 dias de imersão no estudo da língua inglesa e de vivência cultural. A estudante afirma que o Conecta representou muito mais do que uma experiência educacional ou um intercâmbio, mas um ponto de transformação pessoal, momento em que passou a enxergar sua própria história com mais orgulho e a “entender que os desafios que enfrento diariamente não são obstáculos que me limitam, mas degraus que me fortalecem.”
“O Conecta me ajudou a compreender que a origem não define o destino, mas constrói a força necessária para alcançá-lo. Minha trajetória é feita de travessias, de balsa, de ônibus, de desafios, e cada uma delas carrega aprendizados, coragem e esperança. Hoje, sigo caminhando com mais clareza, mais confiança e a certeza de que os meus sonhos são possíveis, porque eles são sustentados por esforço, educação e oportunidades que transformam vidas”, expõe a jovem, escolhida para ser uma das oradoras na cerimônia de entrega do certificado do primeiro módulo do curso de inglês, realizado em parceria da Prefeitura com o Colégio Petrópolis, dia 16 de dezembro.
Como moradora no pós-balsa, uma região distante do Centro da cidade, Bruna afirma que desde cedo aprendeu que na sua vida nada seria fácil, sobretudo porque estudar exigiria uma rotina longa e cansativa. “Muitas vezes, saía de casa ainda cedo e retornava já à noite, cansada, mas com a consciência tranquila de que estava fazendo o possível para construir um futuro diferente. Essa rotina me ensinou a ter disciplina, responsabilidade e persistência, qualidades que carrego comigo em todas as áreas da minha vida.”
A jovem lembra que em 2024 vivia uma rotina ainda mais intensa, pois além de cursar o Ensino Médio na EE 20 de Agosto, também estudava na ETEC Lauro Gomes (no Centro da cidade), onde fazia o curso técnico em Logística. Conciliar duas instituições, longos deslocamentos e uma carga elevada de estudos não foi simples. Houve dias de cansaço extremo, dúvidas e inseguranças. Ainda assim, ela continuou, porque “sempre tive a certeza de que a educação seria o meu principal instrumento de mudança.”
Antes da viagem à Irlanda por meio do Conecta, Bruna conquistou uma bolsa de estudos que a levou a passar um mês na Argentina, naquela que foi sua primeira viagem para outro país, experiência que afirma ter marcado profundamente sua vida. Afinal, pôde conhecer uma nova cultura, se comunicar em outro idioma e a lidar com desafios de forma independente. “A Argentina me ensinou a ser mais autônoma, mais confiante e a perceber que o mundo é muito maior do que a realidade onde cresci. Voltei dessa experiência com uma nova visão de futuro e com a certeza de que eu poderia ir muito além.”
A persistência e o desejo de ir além, de buscar conhecimentos para no futuro realizar o sonho de cursar Engenharia Aeronáutica em uma das universidades mais reconhecidas do mundo, o Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, valeram a pena. Em junho desde ano, ela se formou na ETEC, conquista que para ela e para a família teve um “significado imenso”, pois simbolizou não apenas um diploma, mas a superação de um ciclo marcado por esforço, abdicações e muito aprendizado. Para ela, concluir essa etapa reforçou ainda mais a confiança e a vontade de continuar estudando.
“Foi nesse contexto que o Conecta São Bernardo entrou na minha vida e ampliou ainda mais os meus horizontes. O Conecta me mostrou, de forma concreta, que oportunidades existem e que jovens de diferentes realidades podem, e devem ocupar espaços que, muitas vezes, parecem distantes. O projeto me ajudou a desenvolver não apenas habilidades acadêmicas, mas também sociais, culturais e emocionais. Acima de tudo, fortaleceu minha autoestima e me fez acreditar que sou capaz de alcançar grandes objetivos”, afirmou.
Agora, ela não esconde que seu maior objetivo é ingressar no ITA, que tem um dos vestibulares mais “desafiadores do País”, o que a levou a se decidir por se preparar melhor para as provas e, justamente por isso, não prestar o vestibular neste ano. Essa foi, raciocina, uma escolha consciente e estratégica, a fim de fortalecer sua base acadêmica e chegar mais preparada em 2026. Para ela, essa decisão não representa atraso, mas investimento no próprio sonho.
“Ao me imaginar formada no ITA, penso em uma carreira com alcance internacional. Desejo trabalhar para empresas ou projetos fora do Brasil, participando de iniciativas globais e lidando com tecnologia e inovação de alto nível. No entanto, não tenho o desejo de morar fora por tempo indeterminado. Amo o Brasil, a nossa cultura, diversidade e a beleza natural única que o nosso País possui. Quero crescer profissionalmente, mas também contribuir com o desenvolvimento do País onde nasci e onde minha história começou”, planeja.
















